quinta-feira, 26 de maio de 2011

“...E que minha loucura seja perdoada...” (Perfil do Cristiano)


O destino parece óbvio... Dono de passos apressados e sem rumo, segue, todo dia, e sempre chega a lugar nenhum. Pouco percebido, costuma causar incomodo apenas quando transita em espaços inconvenientes; estragando a cegueira com seu aroma de descaso. Quando exposto na escuridão, lembra uma espécie de bicho Papão dos contos urbanos; por vezes provocava medo. Pena não! Pena é feio sentir...

   A entrevista é comprada por dois cigarros. E o local é apropriado para deixar Cristiano a vontade para falar. Mas, ficar a vontade parece não ser o suficiente, não pelo pudor, e sim pela dificuldade de lembrar.
Nome? Cristiano. Ele não soube dizer o sobrenome, tentou lembrar, fez umas caretas, e nada... Percebi que não lembrar deixou-o triste. Então, vamos para a próxima pergunta. O sobrenome não deve ser tão importante assim...
Idade?...
Cristiano sorri. Coloca as duas mãos na cabeça, e começa a balançar o corpo. Olha fundo nos meus olhos, como se a resposta estivesse lá. E nada... Alguns resmungos e com um movimento quase agressivo, levanta do chão onde estava sentado e sai andando a procura de fogo para acender o primeiro cigarro. Fico sentada, e na dúvida se ele irá voltar... Ele volta...
- Você tem 27 ou 28 anos Cristiano?... Já que nos olhos não carrego respostas, tento ajudar.  Ele coça a cabeça e responde: -É... isso ai!
-27 ou 28 anos, qual é sua idade?...- Não sei.  Mais umas caretas, e sorrisos. Cristiano fuma com prazer o cigarro e solta a fumaça com certa delicadeza, e depois dá tapas no ar para dispersá-la.
Um amigo de infância de Cristiano havia me dito a idade sem muita certeza. – Ele tem 27 ou 28. A gente estudou junto quando era criança. Éramos do mesmo grupinho, e eu também usei drogas. No nosso grupo todo mundo começou usar mais de brincadeira que por curiosidade; eu consegui sair fora, alguns outros moleques morreram por motivos relacionados ao vicio, alguns foram presos, e o Cristiano está por ai, perdido no seu próprio mundo.
Vitrines iluminadas. Gente caminhando. Carros desfilando. Música e barulho. Gritos, gargalhadas e murmúrios... Várias marcas e cores expostas contrastando. Caras marcas! E Cristiano ali... Agachado, fazendo gestos de algo que não acontece; trocando palavras com quem não existe. Um personagem atraente devido a contradição de palavras pronunciadas, e ao mesmo tempo, sem palavras que defendessem alguma idéia ou ponto de vista para que eu pudesse escrever. Também procurei respostas em seus olhos, e por algum motivo, senti felicidade em vê-los brilhar. Ele não tinha ganhado nenhum presente, mas mesmo assim seus olhos pareciam cintilantes. Efeito da droga ou um resquício de esperança?
O estranho conhecido não me provocava estranheza. Parece já fazer parte do cenário. Estabelece um moderno sentimento de auto-suficiência, que sou incapaz de definir. Com seus pés descalços, de repente saiu correndo feito louco... Observei os movimentos desajeitados que fazia a cada passo. Achei que iria voltar e fiquei a esperar... Cristiano não voltou!
Depois de alguns minutos, levantei do chão e fui embora. Alguns comerciantes na praça ficaram me olhando. Acho que eles não entenderam qual o motivo que me levou a conversar com Cristiano. – Ainda bem que as respostas não cabiam no meu olhar, ninguém gosta de se mostrar tão fácil assim...