sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Trabalho de Português

Livro: “A vida que ninguém vê”
Autora: Eliane Brum

“A vida que ninguém vê” já havia sido ensaiada numa histórica série de reportagens sobre a Coluna Prestes em 1993, onde Eliane Brum expõe fielmente o cenário ocorrido 70 anos antes, mostrando o lado nada heróico do ocorrido.
Praticamente intimada por Marcelo Rech, Eliane em 1998 aceita o convite para escrever crônicas da vida real. O que resultou 46 colunas, que durante 11 meses “vitaminaram” a edição de sábado do jornal Zero Hora, onde a autora já era consagrada, principalmente por apresentar textos que eram um misto de crônica, reportagem e coluna.
Em 2000, Eliane deixa o Rio Grande do Sul, levando na bagagem o Prêmio Esso de Jornalismo – Regional Sul de 1999, para ir trabalhar na revista Época.
Em 2006, para a felicidade geral dos seus fãs, surge o livro “A vida que ninguém vê”, contando histórias de pessoas comuns, que retrata vidas de pouco reconhecimento de forma incomum, pois a sensibilidade extra-sensorial da autora não permite escapar nada, tudo é absorvido e transmitido de maneira subjetiva e suavemente irônica.
A empatia da colunista, ou cronista, ou ainda repórter, proporciona uma viagem a “mundos” desconhecidos, permitindo ao leitor ter a possibilidade de visualizar o que muitas vezes é incapaz de ver ou de imaginar.
Eliane Brum, entre a tragédia e o desmerecimento, escolhe o subjetivo equilíbrio; e lentamente faz com que pessoas invisíveis assumam um formato perceptível, fascinando, tamanho a grandiosidade exaltada de cada vida.
Acredito que a Teoria da Culpabilidade de Jean Paul Sartre é totalmente ignorada por Eliane, pois é impossível ter prazer diante da sutil escolha de cada adjetivo que desenha delicadamente as contradições que o mundo oferece diante de cada protagonista.
A história de um doce velhinho, que havia sido vítima do holocausto e que morava na época em Porto Alegre, onde trabalhava fazendo comerciais, vendendo a imagem de seu rosto angelical, que sobreviveu mesmo presenciando o lado desumano dos Homens; foi a crônica que mais me chamou atenção, principalmente pela perfeita descrição do protagonista, pois ler “Cabelos de neve, barba de merengue” no princípio do texto é o suficiente para a imaginação “pisar” no acelerador.
Personagens como o “Sapo” remetem não só a cegueira coletiva, como também a capacidade adquirida de quem seria a vítima, em aceitar com veemente esmero o “papel” degradante que a sociedade insiste em deixar vago.
Em “O Menino do Alto” se poupa detalhes sobre o personagem, que deveria ser central para os olhos dos leitores, mas que impacta tão rapidamente que nem o nome deixa escapar. A suposta falta de intimidade reflete a ideia de que todos sabem da existência do “menino”, o que não bastaria para mudar a situação.
Em “O Conde Decaído”, nem o concreto foge da visão de Eliane, que ao contrário da história anteriormente citada, o Conde é reconhecido pelo nome e um sobrenome que relembra um passado de glória, e nem com isso consegue obter um merecido respeito da sociedade.
A história de Camila em poucas palavras poderia ser resumida numa frase: - O aborto diário da sociedade. Entre a inocência ferida e a frágil esperança, a jornalista escolheu a ironia, e não fechou a janela para a tragédia repetidamente ignorada nas ruas de Porto Alegre.
“O exílio” é a crônica mais “pesada” na minha percepção, pois do começo ao fim, ou do fim ao ponto final, mostra a ausência do viver até o deixar a vida. A sensação de vazio e incapacidade é literal nos personagens.
Em “Adail quer voar”, já se pode dizer que a felicidade sobressaí perante qualquer contradição que a vida possa oferecer. “Õ, negão” como é chamado carinhosamente pelos segundo ele (Adail), “doutores”; é aquele tipo de pessoa que faz qualquer um se questionar: “O cara tem uma vida desgraçada e como pode viver distribuindo sorrisos?”. Eu não sei se foi pelo indiscutível carisma, mas Adail garantiu duas crônicas nas páginas do livro de Eliane, onde na primeira encantou com seus sonhos, e na segunda conquistou mais que pessoas, “Ô Negão” conquistou o tão esperado voo de avião.
“A história de um olhar” é a primeira crônica sequencial do livro, onde se mostra como salvar um “mundo”, neste caso, o mundo de Israel, que segundo o senso comum era desregulado das ideias, o que não foi obstáculo para a professora Eliane ter a sua própria verdade. Neste conto possui um dos trechos mais perfeitos, se é que o perfeito pode ser reconhecido:
O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva.
Inclui. (BRUM, E. “A vida que ninguém vê”. 2006. p.22)

“Um Certo Geppe Coppini” retrata a vida do sempre isento e esperto morador de Anta Gorda, cidade onde Geppe costumava marcar presença em todos os eventos, de velório à casamento. A irreverência do protagonista garante frases que fazem um cortejo à loucura, como por exemplo: “Nem o Diabo quer a metade”, “Se quiser cortar lenha, corta. Eu me vou porque se o governo me descobre trabalhando me corta o soldo”.
“Enterro de pobre” acredito que seja contada propositalmente de forma quase que como “mais uma notícia”, ou melhor; não se insinua sentimento algum, como se pobre não os tivesse; e tamanha é a brutalidade do cotidiano dos sobreviventes que o texto mesmo que revelando apenas fatos, é possível sentir indignação por trás das palavras que denotam a realidade.
“O Colecionador de almas sobradas” conta a vida de Oscar Kulemkamp, um arquiteto dos restos e sobras de vidas consumidoras. Trabalhando como garçom quase que maior parte de seus 85 anos, Oscar também servia como combatente do esquecimento, reinventando o mundo que lhe restou, tecendo sua colcha de retalhos com a vida dos outros.
Em “O cativeiro”, no princípio fala da fuga de um macaco chamado Alemão, que após conseguir a tão “tentada” liberdade, assume uma postura de outro animal, sendo mais uma vítima do meio, e abrindo mão da liberdade para se comportar como homem. A crônica também oferece passaporte a uma visita ao zoológico de Sapucaia do Sul, sem glamour e sem volta, proporcionando uma análise do cotidiano ao mostrar que os animais em cárcere se humanizam, e regridem ao comportamento padronizado da sociedade.
Na crônica “Eva contra as almas deformadas” revela-se a ironia dos requisitos para ser uma vítima; Eva não foi “a coitada” como apontavam, embora sofresse com a sentença do preconceito e da intolerância da humanidade; expondo que as vítimas foram quem acreditou que o requisito que condena é a imperfeição.
“O gaúcho de cavalo-de-pau” conta uma história que poderia entrar para o folclore riograndense. Vanderlei, o Dom Quixote de bombacha, busca as coxilhas da Expointer desde que as descobriu, é visto como louco até perante o olhar das vacas premiadas, mas ninguém em sã consciência teria a petulância de dizer que falta autenticidade ao ver o peão insano a trote na garupa de uma vassoura.
O livro “A vida que ninguém vê” de Eliane Brum é o resultado da prática de sua frase: “metade (talvez menos) de uma reportagem é o dito, a outra o percebido. O olhar é um ato de silêncio”. Alias várias frases de Eliane são sensivelmente extravagantes, como: “Tudo que somos de melhor é resultado do espanto”; “Olhar dá medo porque é risco”; “Se estivermos realmente decididos a enxergar não saberemos o que vamos ver”; “Tudo é um jeito de olhar”; “Cada um é único, uma padrão que não se repete no universo”; “Se de perto ninguém é normal, de perto ninguém é herói”.
Enfim, em meio “A voz” que ensandece, e os protestos de “Frida”, Eliane Brum esbanja criatividade no uso gentil das palavras. A autora não só escreve o que não foi supostamente enxergado, ela traduz com palavras sentimentos que ninguém costuma aparentemente sentir. Pois o livro expõe o não-fato, a antinotícia, os anonimatos, os desacontecimentos; sugerindo o absolutamente extraordinário, mergulhando no invisível; transformando a retina viciada; não colocando a culpa na indiferença justificada; desviando do herói e chegando ao Homem.

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