Frutos da própria indiferença
Fruto da imaginação, o Brasil achado ou descoberto, foi tratado como um mercado, que oferecia produtos de todos os tipos. Produtos que foram esculpidos por meio da brutalidade dos conquistadores, ou seriam invasores?... O entendimento de supremacia portuguesa era contextualizado não só pela exibição de suas grandiosas caravelas e carabinas, e sim pela covarde imposição de cultura. Muitos Paus-Brasil tiveram seus troncos corrompidos, já os índios tinham suas raízes arrancadas, sendo dizimados não apenas pela perda imediata de suas vidas e sim uma morte cruel em longo prazo, pois eram tratados como escravos por não possuírem conhecimento suficiente para assumir uma postura considerada digna de seres possuidores de essência, sendo julgados de maneira desleal, e submetidos à adequação de costumes estranhos aos olhos de quem teria sido achado, mas não descoberto de fato.
A diversidade cultural resultante da fusão de índios, brancos e posteriormente negros criou um novo panorama estrutural, formando a base do que hoje se pode definir o povo brasileiro. Um povo heterogêneo, que a princípio não foi dado como Nação, pois a união de etnias normalmente dava origem a um Zé Ninguém, já modelando ampla desigualdade na sociedade, devido principalmente a ausência de relações interpessoais capazes de enaltecer valores comuns, para então agregar ou pelo menos respeitar os incomuns.
A economia brasileira durante quatro séculos se deu graças a milhões de indígenas e negros, que foram vendidos, manipulados e castigados como animais, garantindo uma produção voltada ao mercado externo, tendo a pecuária apenas como exceção.
Embora hoje comumente se ouça que o brasileiro é acomodado, é preciso salientar que a principio a resistência sempre existiu, normalmente com finais fatais e frustrantes, isso todos sabem, mas que nunca aniquilou a inquietação dentro de uma sociedade colonial que era comandada por latifundiários.
“Quem ri por último, ri melhor”... Na crueldade histórica não foi bem assim! Mesmo com a Independência do Brasil em 1822, dando início ao 1° Reinado, e logo, em 1840 ao 2º Reinado; a abolição escravocrata teimava em resistir, tendo dificuldades de sair do papel, sendo atendida com má vontade a partir da assinatura da Lei Áurea em 1888. Neste período, o misto de culturas aglomeradas gerou inúmeros manifestos e revoluções, retratadas hoje até com certo glamour, mas que na verdade eram atos repetidamente reprimidos pelo Governo, com total intolerância e desrespeito a vida, o que retardava o fortalecimento do jovem e dependente país.
No romance de Érico Veríssimo, ambientado à época da Revolução Farroupilha, trecho de Um Certo Capitão Rodrigo, se encontra: “Escuta o que vou lhe dizer, amigo. Nesta província a gente só pode ter como certo uma coisa: mais cedo ou mais tarde rebenta uma guerra ou uma revolução...” Deixando explícito o descontentamento alastrado em forma de uma série de rebeliões provinciais.
A Proclamação da República em 1889 não foi o suficiente para harmonizar o Brasil, porque a oposição de setores monarquistas, de oligarquias regionais e da sociedade civil era constante, principalmente pelo autoritarismo dos governos militares, que faziam reformas favorecendo a nascente burguesia, mantendo-se centralizado a base de muito sangue derramado.
Com o país independente, o Governo investiu numa política em apoio à imigração, para atender principalmente as exportações de café, pois a mão-de-obra era escassa após a abolição, abrindo espaço para o aumenta da mistura de culturas, recebendo alemães, italianos, turcos, japoneses, espanhóis, portugueses; muitos que sem condição alguma chegavam ao Brasil depois da I Guerra Mundial, dispostos a trabalhar por pouco ou quase nada. Com essa imigração crescente, se pode destacar o aumento da marginalização dos negros e índios, que abandonados a própria sorte, formavam um grupo desfavorecido, que depois de muito terem contribuído para a formação do país, foram novamente maltratados pelo descaso do Governo.
Senhores da terra ou poderosos oligarcas, é assim que se defini a República do Café-com-Leite, um período que São Paulo e Minas Gerais revezaram no poder executivo, ditando o caminho do país. A Revolta da Vacina é um exemplo de tensão causado pela falta de saneamento básico, fato que se deu também pela desinformação dos moradores do Rio de Janeiro, e que mostra o desmerecimento com que era tratada a população, já que nem os setores básicos sociais eram atendidos, e que por vezes deixava o povo sem amparo, carente por atenção, dando abertura para novos movimentos, como Canudos e o do Contestado, que embora diferentes, ambos tinham caráter messiânico, e que por fim só exterminava de maneira sangrenta idealizações que nem eram tão exigentes assim, mas como poucos detinham o poder, estes com interesses de satisfazer os herdeiros de uma elite, deixavam a mercê o povo que acabava não se reconhecendo como Nação, já que era visível um sistema relacional que não atendia a todos como indivíduos, sempre beneficiando alianças aparentemente tradicionais.
Depois de muito café-com-leite, eis que surge o chimarrão na roda. Uma mudança que impulsionou o desenvolvimento do Brasil, com implementos de diversos ganhos sociais. A figura autoritária do Estado, que embora reescolhido e dito Novo, manteve benefícios aos latifundiários, e que devido ao carisma do populista Getúlio Vargas, que utilizava de uma espécie de resgate do “pão e circo”, enchendo a boca para se direcionar ao povo com seus frequentes discursos, que segundo ele agora sim formava uma Nação, sendo denominado até como “Pai dos Pobres”, uma ironia para quem era capaz de enxergar por trás do verde e amarelo, símbolo do nacionalismo usado para vangloriar o que seria uma forma de declarar suas boas intenções, a articulação de alianças perigosas que o país começou a ter e defender.
O “queremismo” não foi o suficiente para esconder a tendência fascista observada nas atitudes de Getúlio. A contradição do “Bom velhinho” nem sempre terminava em decretos satisfatórios, pois ao entrar na II Guerra Mundial ao lado dos Aliados em 1942 após ter sido presenteado com a Hidrelétrica de Volta Redonda, não apaga o fato de ter usufruído de uma cômoda ditadura, e de ter até mandado Olga Benário como um presentinho de estima à Hitler.
Ao contrário da política intervencionista da Era Vargas, Eurico Gaspar adotou o Liberalismo ao assumir o Governo logo após a deposição de Vargas, proporcionando uma quase Democracia. Mas como já anunciava Getúlio Vargas, ele voltaria, e voltou, devendo seu retorno principalmente ao déficit social que o Plano Salte não foi capaz de minimizar após a abertura as importações.
Também não se pode dizer que Vargas voltou devido à incapacidade da oposição, ou porque tinha o total apoio dos brasileiros, porque não foi só de sorte e de apreço que o manteve no Poder, um exemplo disso foi às reformas trabalhistas que fez e a criação da Petrobras, esta que promoveu polêmica na época, e com o slogan “O Petróleo é Nosso” se manteve firme, não compartilhando ao internacional, e que hoje com o seu neto populista (Lula), já que o filho (Jango) não teve a mesma oportunidade, se destaca no país, colhendo bons frutos, que talvez não sirva ainda para a Nação, mas que esta no caminho certo, basta um futuro bisneto ter competência.
A comoção tomou conta do país após a morte de Vargas. Suicídio ou Homicídio? Isso não vem ao caso, o certo era que o Brasil se dizia órfão, tornando desfavorável ao contexto político para um eventual golpe, e desta forma, a transição de poder se viu obrigada a moldar-se na legalidade, e assim, o vice-presidente João Café Filho sob pressões antigetulistas governou até Juscelino Kubistchek se tornar presidente.
Com o lema “50 anos em 5”, JK construiu suas pirâmides, e mesmo assumindo o nacionalismo-desenvolvimentista como ideologia, abriu espaço ao mercado transnacional, processo que irá ser resgatado pelo Governo Militar, fazendo uma combinação antagônica: a organização de um estado autoritário e o desenvolvimento econômico, fortalecendo uma crescendo autonomização, mas que gradativamente iria causar desgaste entre sociedade civil e Governo.
O consolidar das indústrias ofereceu uma maior oferta de produtos a massa, deixando claro que o mercado cultural do Brasil valorizaria a cultura como ferramenta política, tornando sua nação homogênea para assim manipulá-la com ideologias que são apresentadas indiferentes a classes, tendo como objetivo desintegrar comportamentos. A dita inclusão criou um cenário favorável ao capitalismo, estabelecendo uma desorganização hierárquica, dando ilusória ideia de igualdade, e não de domínio.
“Apoio Comunista!”... Uma suposição que nem sempre foi comprovada, e que teimaria em insistir como a mais terrível ameaça ao palanque, ocorrendo várias vezes no contexto político brasileiro, uma hipótese que fez Jânio Quadros e a tão anunciada Vassourinha Ligeira passar depressa pela presidência, deixando seu sucessor, João Goulart, este que até tentou uma reestruturação das reformas de bases, mas com o Plano Trienal sem gerar grandes resultados, acabou deposto por uma acusação de Golpe Comunista.
O Golpe que derrubou Jango foi apoiado através da "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", que teve participação de aproximadamente 400 mil pessoas; mas a Nação é composta por bem mais que isso, ou não?... O fato é que esses acontecimentos abriram caminho ao lamentável Regime Militar. Neste momento, a impressão que se tem em relação ao povo, é que ele volta a assumir uma posição de seres sem essência para os olhos dos governantes, e como elefante de circo parece desconhecer sua força, amedrontado garante o show num picadeiro pintado de verde e amarelo. Ou seja, a falta de uma relação interpessoal da Nação brasileira faz com que sejam oprimidos novamente, uma novela que até hoje acontece, tendo como vilã e vítima a própria população.
O Regime Militar parece censurar não só a expressão, mas também o pensar das pessoas, que bombardeadas por anúncios nacionalistas, de ordem e com um caríssimo progresso, criavam uma multidão de Policarpo Quaresma, fazendo a tão sonhada Nação perder o sentido, pois reconhecer a pátria não seria o suficiente, para ser uma Nação de fato, é preciso ser bem mais que isso, é necessário o respeito com a terra e não derramar sangue inútil sobre ela.
Durante a Ditadura Militar a industrialização aumentou significativamente, não tanto quanto a dívida externa se multiplicada aos mortos e “desaparecidos”, pintando um frustrante quadro na história do país, e em verde e amarelo, claro. Um Brasil que foi governado por homens que tinham um pensamento extremamente estúpido do que cabia a eles estando no Poder, chegando ao ponto de se ouvir dizer da boca de um militar o seguinte “Quem começa uma guerra, não pode lamentar a morte!”... Então estamos nos deixando comandar por senhores da guerra?... Os brasileiros tornar-se-iam neste momento acomodados então? Quero acreditar que não, talvez a Nação... Muitos brasileiros enfrentaram duras consequências por não aceitarem a imposição do Governo, mas se cada um gritar de um lado, ninguém ouve, unificar os gritos era preciso... Mas como? Bom, a música e a arte em geral conseguiram driblar com muito sacrifício o cruel e censurado panorama que se estabelecia, e aos poucos foi se fazendo perceber pela Nação, contribuindo para alertar sobre a cegueira proposital organizada pelo Regime Militar; um processo lento, inseguro e que gradualmente permitiu ser testado a elasticidade da abertura até realmente se poder respirar Democracia. A música, utilizando-se da rebeldia invocada principalmente pelo rock, até hoje frisa os acontecimentos que não deixaram registros, como cantou Renato Russo “... E agora você quer um retrato do país/ / Mas queimaram o filme, queimaram o filme... (Mais do mesmo), e muitos outros, como Paulo Ricardo: “ ...Nos aguardam exércitos, que nos guardam da paz. Que paz! / A face do mal, um grito de horror, um fato normal, um êxtase de dor e /Medo de tudo, medo do nada, medo da vida, assim engatilhada / Fardas e forças, forjam as armações / Farsas e jogos, armas de fogo, um corte exposto, / Em seu rosto amor, e eu, / Nesse mundo assim, vendo esse filme passar, / Assistindo ao fim, vendo esse filme passar / Apolípticamente, como um clip de ação, /Um clic seco um revólver, aponta em meu coração / O caso Morel, o crime da mala, Coroa-Brastel, o escândalo das jóias, / E o contrabando, um bando de gente importante envolvida / Juram que não torturam ninguém, agem assim, pro seu próprio bem, / São tão legais, foras da lei, e sabem de tudo, / O que eu não sei, não / Nesse mundo assim, vendo esse filme passar, / Nesse mundo assim, vendo esse filme passar.”(Alvorada voraz)
Muitas vezes se é dito que não há patriotismo no Brasil, pois eu acredito que quando analisado todo o contexto histórico do país, se encontra até demais. Já que sempre que apresentado as cores da bandeira foi com o objetivo de dispersar ou manipular a resistente Nação, que sobreviveu aos trancos e barrancos as ditaduras alienistas, por possuírem uma incontestável essência, mas que ainda desconhecem depois de tantos golpes dados o que seria de fato uma Nação. O resultado de tudo isso, é o mar de lágrimas que se é feito cada vez que a seleção brasileira perde, mas quando ocorre o mensalão, por exemplo, entre incontáveis outros exemplos que poderiam ser dados, a indiferença sobressai de goleada.
Mas como entender isso?... O comportamento que priorizava relações que a principio excluía o que se tornara a base estrutural do Brasil, hoje é desfrutado no dia-a-dia da Nação, deixando de lado a essência que todo individuo possui, para se obter facilidades muitas vezes desnecessárias dentro de um cotidiano que foi constituído de forma a sempre privilegiar aos “conhecidos” ou “interessantes contatos”. Deixando nosso lado nacionalista se manifestar com a seguinte mediocridade: - Eu posso falar mal do Brasil, dizer que todo político é inútil, que a lei é suja e lerda, que a saúde é um caos e blábláblá... Mesmo não tomando nenhuma atitude para mudar a situação... Agora, se um ator famoso norte americano falar em uma entrevista sem noção sobre algum problema encontrado no Brasil... haaaa! Daí é revolta nacional! Sendo manchete na mídia por dias...
A única diferença do passado, frente ao cenário atual, é que agora o desleixo oportuno do Governo pode ser amplamente apontado. Mas, infelizmente, a população invés de tirar proveito disto, prefere agora realmente acomodar-se como vítima, não assumindo a parcela de culpa que é sua por direito, já que não supervisiona e cobra a legalidade dos atos que constam na já ultrapassada Constituição. Tendo normalmente como resolução para pensar que esta tudo bem, a comparação com alguns desastrosos países, como o Haiti, Bolívia, Colômbia, Paraguai, etc. Escolhendo o consolo invés da evolução... E muitas vezes assumindo uma postura de vítima da inferioridade imposta por alguns outros países desenvolvidos.
É necessário unificar os gritos, para assim serem ouvidos! Não para se rebaixar internacionalmente, e sim para reivindicar ao Governo melhorias, já que agora um maior espaço na imprensa pode ser explorado.
Concluindo, assim como o Governo é o reflexo dos seus eleitores, a Nação é o reflexo da auto-estima de seu povo.
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