quinta-feira, 6 de maio de 2010

Eterno Amor!

Amor à primeira vista? Sem chance!
Eu já o enxergava fazia algum tempo, e sinceramente, ele com certeza era o oposto de qualquer delírio inconsequente juvenil do que seria um homem perfeito... Dono de passos despreocupados se destacava em meio a qualquer multidão. Simplesmente o cúmulo do desleixo e do antipadrão. Pouco falava, e com sutis gestos se mostrava calmo e um tanto distraído. Formava uma figura digamos que autossuficiente, de comportamento estranho, ou apenas fora do convencional, mas com uma paz de espírito indescritível.
Sou incapaz de descrevê-lo fisicamente, pois seria petulância escolher um só foco para assim desconstruí-lo, até porque sua beleza estava principalmente nos movimentos e gestos peculiares, detalhes que faziam o corpo ter uma linguagem hipnótica diante de meus olhos, fazendo seus contornos e quem sabe imperfeições serem tão... Sei lá...
Defeitos? Alguns! Mas como foi difícil descobri-los. Com a timidez aumentada pela insegurança, quantas curvas fiz até ter coragem de roubar-lhe a solidão. Aliás, como a solidão lhe caia bem, deixando-o atraente. Camuflado de indiferença e supostamente apático, lembrava uma esfinge, impassível, indecifrável; pintando com sua estranha ausência o mais exuberante quadro, provocando inúmeros questionamentos que por vezes me tiraram o sono... O que fazia fugir da realidade? O que estaria pensando? Depois de realmente o perceber, como foi difícil fugir de sua imagem... Defeitos! Na verdade nem sei estabelecer o que era defeito ou somente qualidades particulares.
Aceitação? Atrair-se pelo diferente é estranho! Após finalmente aceitar o óbvio, a razão voltou a delimitar o caminho a seguir, e então venho as estratégias. No plural! Chamar atenção de quem vive em constante contemplação de algo que se desconhece é uma missão quase que impossível... Criar uma situação! Bom, não bastava perguntar-lhe as horas e iludir-se que o papo ia surgir; pois depois de observá-lo, já deduzia que ele responderia sem ao menos olhar na minha direção.
Complicado? Se não fosse, eu nem ostentaria sua presença e atenção! Vivenciando um amor platônico diariamente, que poderia ser definido como não correspondido, ou bem mal interpretado, eu ficava sempre a observar pelos corredores da escola o estranho conhecido todos os dias.
Encontro perfeito? Isso só acontece em filmes! Na vida real, a desgraça que promove encontros. Ta bom, to exagerando; mas trocar as primeiras palavras por causa da perda do ônibus é bem sem graça. Embora que ir caminhando lado-a-lado para o prédio onde ambos morávamos foi perfeito. Começamos falando das aulas, e logo de filmes, músicas, festas; logicamente que tive que distorcer algumas opiniões, não dá para ser simpática e sincera por muito tempo, e também concordar que Concrete Blonde é melhor que The Smiths não chega a ser pecado, no máximo uma quase censura as minhas ideologias. O importante que depois deste fato, ele começou a dizer “Oi”. Ah... Não é nenhuma medalha de ouro nas olimpíadas, mas é um “Oi”, ou seja, “To passando por aqui e estou te vendo”.
Apressar a história?... Os velhos não têm pressa! Sentada na varanda, vejo o sol se despedir, e chego a imaginar a impaciência do leitor, mas necessito respeitar meu tempo, pois mesmo recordando minha adolescência, sou incapaz de regredir a percepção já adquirida; soma de três quartos de um século.
Príncipe disfarçado? Com certeza! Não fora a guerra, nem a Woodstock, mas sua aparência sugeria paz e amor. Não era triste, tão pouco um cego feliz. Sua sutileza ao expor palavras quando contrário as que ouvia o desenhava como tão humilde. Se dizendo fraco, e utilizando de grandes e destacáveis autores, moldava frases que o deixava tão forte.
Bonito ou feio? Lindo ao interpretar músicas ou ao comentar livros, principalmente na maneira como articulava as mãos ao falar, e no olhar fascinante ao enquadrar-me em seus olhos. Horrível! Quando inalcançável em meus sonhos.
Amizade? Infelizmente ou felizmente! Idealizara tanta coisa, mas compartilhar canções e dúvidas aparentemente eram o suficiente a ele, causando uma suposta amizade de infância. Sua presença dispersa provocava nostalgia, e por vezes desmerecia-me. Olhar apenas não bastaria para acalmar o sentimento exagerado que nascera sem permissão... Tudo ou nada! No fundo todos os seres humanos preferem assim...
Desistir? Até tentei! Observar por uma vida seria muito tempo. Mas agora eu teria que abrir mão da amizade para talvez conseguir esquecê-lo; impossível... Fugir era a solução... Coisa de gente fraca! Nada! Tive que ser muito forte para aos poucos ir me distanciando, insultando a razão, abafando no silêncio a aflição de um sentimento amplo e crônico.
Fim da história? Claro que não! Quando se foge de algo, acaba-se tropeçando em outras coisas, e que chegam a confrontar as boas intenções que tinha perante a falta de sentido das situações geradas. Falo isso, porque após fugir de sua imagem, ele quem buscou minha presença.
Orgulho? Nem pensar! O adorável estranho voltou a minha vida com um olhar mais incrível e desesperado por mim que eu já tinha percebido até ali. E depois de poucas e difíceis palavras pronunciadas, o tão esperado beijo aconteceu.
Até hoje não sei entender o que é o Amor de fato, e ainda busco compreender o modo de amar dele, que foge as padronizações, e se faz encaixar-se no incomum como um Ser tão perfeito...
Paixão de adolescente? Não! Depois de cinco décadas de união, todos os dias tive a possibilidade de abraçar o mundo; um mundo antipadrão e desleixado; estranho e tímido; rico de sutileza e pobre de ignorância; simplesmente um supremo Amor, e que não faz parte apenas de meu passado, pois embora falecido, ainda se faz presente em meus pensamentos.
Eternizo nas páginas o que o tempo é incapaz de cicatrizar, e depois de seis anos de partida, fico aqui nesta velha cadeira de balanço, olhando fixa ao nada, e me contento em sonhar, pois sei que ele é quem agora me observa, e fica a esperar, esperar, esperar...

2 comentários: