quarta-feira, 17 de março de 2010

Escravos da Cor ou Incolor?

A mistura do branco com o preto, historicamente, vira sangue. E como se fosse o submundo da cultura, foge às telas. Pois nem tudo que resta, possui a capacidade de se transformar em blues.
Quando dois elementos se envolvem, uma mistura surge; mesmo não se complementando, mesmo sem visar algum objetivo, mesmo sem saber o porquê da experiência.
O resultado da mistura, um dia se fez duvidosa, e com traços de um, e características de outro, o resultado da união dos dois elementos, recriou a “desobra”, ou simplesmente um “anti-quadro”.
A cobaia da vez nascera num laboratório sem luz, introduzido sem intenção e com má intenção, formando um “ser” sem propósito.
O erro desmoralizante sucumbiu e amedrontou as senhoras, e como se fosse praga ou castigo, se fez espalhar por todo canto.
O tronco julgava o que as correntes não resolviam. A ordem ignorava o progresso, e assim muitos erros foram produzidos.
Damião, o despropósito concebido, era saudável como o pai, porém, preto como sua mãe. Herdeiro do mau hábito, não costumava opinar; e com o destino praticamente definido por classificações e não conclusões, foi um entre muitos experimentos do barão.
O “Crioulo” era motivo de vergonha, e por ter sido geneticamente Y e não X, o pequeno varão de 10 anos, provocava assombro em “Sinhá”.
Sinhá era quase perfeita: prendada, branca, herdeira dos bons costumes; apenas pecou em não ser capaz de procriar bons frutos. Ofereceu ao barão uma única filha, que herdou sobrenome, mas não atenção. Ao contrário do não branco, que atraia muita atenção do barão, mas mesmo assim, era símbolo de desprezo, e por isso, sem sobrenome.
Damião era a zebra da fazenda, lembrando o bicho exótico na sua estranha fusão; o que para mãe representava uma frustrante sorte e um insubstituível azar.
Mesmo com o olhar preso ao chão, era impossível não perceber a inocência de Damião. Possuidor de uma simplicidade que por vezes parecia até desmerecer a si, como gente. Verdadeiro escravo do preto, e fruto do branco; o magrelo crioulinho era dono de contornos marcantes que lembravam a mãe, e de detalhes e gestos que não renegavam o pai.
O aprendiz de escravo era assim, fácil de descrever... Nasceu para ser assim, cresceu assim, multiplicou-se assim, e morreu assim... Um despropósito de zebra, que nem se quer cativou um branco... Um branco registro de papel...

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