Amor à primeira vista? Sem chance!
Eu já o enxergava fazia algum tempo, e sinceramente, ele com certeza era o oposto de qualquer delírio juvenil de como seria um homem perfeito... Dono de passos despreocupados, era simplesmente o cúmulo do desleixo e do antipadrão. Embora não fosse belo, posso confirmar que ele se destacava em meio a qualquer multidão. As poucas palavras trocadas explicitavam serenidade ao se expressar; com um olhar perdido, e por vezes perturbador, formava uma figura digamos que auto-suficiente, de comportamento estranho, ou apenas fora do convencional, mas com uma paz de espírito indescritível.
A primeira vez que o percebi realmente, ele estava sentado no meio fio em frente ao prédio onde ambos morávamos; tomando chá em plena madrugada fria, parecendo estar gordo de tanto casado que vestia, exibindo meias brancas sobre a calça jeans; e o mais chocante, nos pés uma pantufa em forma de cachorro, que na verdade, mais parecia uma foca... Passei por ele balançando a cabeça e rindo, e disse apenas “boa noite!” meio sem vontade. Ele nem me respondeu, mas quando já estava prestes a subir os primeiros degraus da escada do prédio, ele falou ironizando: - Está com inveja da minha superpantufa né!
Olhei para trás e resmunguei: - Vai achar o que fazer!
Entrei no meu apartamento, e já estava tirando o calçado quando ouvi alguém na porta bater. Olhei através do olho mágico e vi o esquisitinho de pantufa fazendo careta para mim... Abri a porta com um pouco de receio, com o mal humor estampado na testa, e com má vontade, perguntei:
- Que tu queres?
- Meu som estragou, quero ouvir o Pijama Show!
- E daí, problema seu!
- Você me mandou achar o que fazer. Bom... Toda noite eu faço isso, escuto o Pijama... Empresta o rádio ai?
- Entra ai! Vou ligar o som, dever estar quase acabando mesmo...
- Você também escuta?
- Sim, sim...
- Quer chá?
- Este troço babado, e que deve estar frio! Não! Valeu!
- Posso sentar no sofá?
- Já sentou né... Só poderia tirar os pés de cima!
- Minha pantufa está limpa!
- Isso significa que já limpou no sofá?
- Tu és neurótica por limpeza?
- Não, só por educação...
- Está brava?
- Cala a boca e escuta a merda do programa!
- Ta bom... Quer ler meus poemas?
- Hum!... Pode ser...
O programa acaba, e a criatura de pantufa vai até a porta e exclama:
- Já vou!
- Thau
- Devolve meus poemas então...
- Bah... Pior que gostei desses seus garranchos! Espera eu acabar de ler?
- Fica pra ti então
- Beleza!
- Abre a porta para eu voltar?
- Hahaha... Tu estas esquecendo algo? Vai voltar para que?
- Tu és muito chata!
- Pelo menos não peço para escutar rádio nos vizinhos às duas horas da madrugada...
- Thau!
- Adeus!
Depois de já estar deitada, até ri da situação acontecida, e pensei: “O sujeitinho sem noção”...
Mal havia acordado, quando ouvi batidas apressadas na porta; ao abri-la ainda vestia pijama, e encolhendo os olhos devido a claridade, me deparei novamente com o vizinho esquisitinho, mas agora sem sua superpantufa...
- Pô! Tu de novo!
- Vim buscar meus poemas
- Tu não havia me dado?
- Mudei de ideia
- Tu deve ser louco!
- Me convida para tomar café?
- Aqui não é padaria!
- Ah!...
- Ta bom... Põe a água esquentar! Por enquanto vou lavar o rosto e trocar de roupa
Quando voltei à cozinha, me deparei com a mesa posta. O intrometido já havia aberto todas as gavetas possíveis do armário para localizar os talheres e condimentos. Olhei o cenário todo e pensei: “Isso só acontece comigo!”. Ele sentado, com um meio sorriso no rosto, dizendo:
- Cara! Tu tens sorte! Sou o homem mais perfeito do mundo...
Respirei fundo, e até me neguei a responder tal bestice... Sentei a mesa, e junto aquele estranho conhecido tomei café, sem falar palavra alguma, era possível apenas ouvir os talheres quando se confrontavam a porcelana da xícara.
Com uma fatia de pão já mordida em uma das mãos, o convidado por si mesmo, foi até a porta e com a mão já na maçaneta, gritou:
- Valeu pelo café! Até que estava bom... Já vou!
- O homem perfeito não lava a louça?
- O homem perfeito tem liberdade, ou seja, não é escravo!
- Tudo bem, te deixo lavar sem as correntes... Hahaha
Hei! Não vai levar os poemas?
- No almoço eu levo!
- Ah... Esta achando que aqui virou albergue? Pega os poemas bem mais ou menos em cima da tevê! Ih... Vaza!
- Hahaha... Eu quero namorar contigo!
- Que?
- É... Eu quero namorar contigo!
- Fica querendo então...
- Faz tempo que to querendo! Tenho pressa de viver...
- Ué... Sem namorar comigo tu consegue respirar da mesma maneira, sabia?
- Bom... Vou esperar tu dizeres que sim... Mas não demora, pois se morrer a culpa é sua!
- Desde que sente no seu sofá para esperar, tudo bem, eu suporto a culpa...
- Adoro seu humor excêntrico...
- Odeio esse seu jeito folgado!
- Eu gosto de ti... É sério! Gosto mesmo...
Pensei: “Eu sempre quis ouvir isso, de maneira tão espontânea como foi dito, mais isso assusta mesmo sendo antes imaginado”. Olhei para o esquisitinho sem pantufa, como nunca antes havia feito. Enquanto isso, ele permanecia com uma mão na maçaneta e a outra arrumava o cabelo com uma sutileza impar, deixando visível o olhar mais incrível e desesperado por mim que eu já tinha percebido até ali.
Dei poucos passos em sua direção, mas o suficiente para alcançar seus lábios... Até hoje não sei dizer o porquê da minha atitude naquele momento, mas depois de buscar exageradas padronizações, o incomum me pareceu tão perfeito... Sem as pantufas, logicamente... Ao lado de um estranho conhecido, consegui abraçar o mundo, o mundo antipadrão, desleixado; estranho e intrometido, mas simplesmente um amor de carne e osso, e que ainda escreve belos poemas...
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