quinta-feira, 15 de abril de 2010

Estranho Amor!

Amor à primeira vista? Sem chance!

Eu já o enxergava fazia algum tempo, e sinceramente, ele com certeza era o oposto de qualquer delírio juvenil de como seria um homem perfeito... Dono de passos despreocupados, era simplesmente o cúmulo do desleixo e do antipadrão. Embora não fosse belo, posso confirmar que ele se destacava em meio a qualquer multidão. As poucas palavras trocadas explicitavam serenidade ao se expressar; com um olhar perdido, e por vezes perturbador, formava uma figura digamos que auto-suficiente, de comportamento estranho, ou apenas fora do convencional, mas com uma paz de espírito indescritível.

A primeira vez que o percebi realmente, ele estava sentado no meio fio em frente ao prédio onde ambos morávamos; tomando chá em plena madrugada fria, parecendo estar gordo de tanto casado que vestia, exibindo meias brancas sobre a calça jeans; e o mais chocante, nos pés uma pantufa em forma de cachorro, que na verdade, mais parecia uma foca... Passei por ele balançando a cabeça e rindo, e disse apenas “boa noite!” meio sem vontade. Ele nem me respondeu, mas quando já estava prestes a subir os primeiros degraus da escada do prédio, ele falou ironizando: - Está com inveja da minha superpantufa né!

Olhei para trás e resmunguei: - Vai achar o que fazer!

Entrei no meu apartamento, e já estava tirando o calçado quando ouvi alguém na porta bater. Olhei através do olho mágico e vi o esquisitinho de pantufa fazendo careta para mim... Abri a porta com um pouco de receio, com o mal humor estampado na testa, e com má vontade, perguntei:

- Que tu queres?

- Meu som estragou, quero ouvir o Pijama Show!

- E daí, problema seu!

- Você me mandou achar o que fazer. Bom... Toda noite eu faço isso, escuto o Pijama... Empresta o rádio ai?

- Entra ai! Vou ligar o som, dever estar quase acabando mesmo...

- Você também escuta?

- Sim, sim...

- Quer chá?

- Este troço babado, e que deve estar frio! Não! Valeu!

- Posso sentar no sofá?

- Já sentou né... Só poderia tirar os pés de cima!

- Minha pantufa está limpa!

- Isso significa que já limpou no sofá?

- Tu és neurótica por limpeza?

- Não, só por educação...

- Está brava?

- Cala a boca e escuta a merda do programa!

- Ta bom... Quer ler meus poemas?

- Hum!... Pode ser...

O programa acaba, e a criatura de pantufa vai até a porta e exclama:

- Já vou!

- Thau

- Devolve meus poemas então...

- Bah... Pior que gostei desses seus garranchos! Espera eu acabar de ler?

- Fica pra ti então

- Beleza!

- Abre a porta para eu voltar?

- Hahaha... Tu estas esquecendo algo? Vai voltar para que?

- Tu és muito chata!

- Pelo menos não peço para escutar rádio nos vizinhos às duas horas da madrugada...

- Thau!

- Adeus!

Depois de já estar deitada, até ri da situação acontecida, e pensei: “O sujeitinho sem noção”...

Mal havia acordado, quando ouvi batidas apressadas na porta; ao abri-la ainda vestia pijama, e encolhendo os olhos devido a claridade, me deparei novamente com o vizinho esquisitinho, mas agora sem sua superpantufa...

- Pô! Tu de novo!

- Vim buscar meus poemas

- Tu não havia me dado?

- Mudei de ideia

- Tu deve ser louco!

- Me convida para tomar café?

- Aqui não é padaria!

- Ah!...

- Ta bom... Põe a água esquentar! Por enquanto vou lavar o rosto e trocar de roupa

Quando voltei à cozinha, me deparei com a mesa posta. O intrometido já havia aberto todas as gavetas possíveis do armário para localizar os talheres e condimentos. Olhei o cenário todo e pensei: “Isso só acontece comigo!”. Ele sentado, com um meio sorriso no rosto, dizendo:

- Cara! Tu tens sorte! Sou o homem mais perfeito do mundo...

Respirei fundo, e até me neguei a responder tal bestice... Sentei a mesa, e junto aquele estranho conhecido tomei café, sem falar palavra alguma, era possível apenas ouvir os talheres quando se confrontavam a porcelana da xícara.

Com uma fatia de pão já mordida em uma das mãos, o convidado por si mesmo, foi até a porta e com a mão já na maçaneta, gritou:

- Valeu pelo café! Até que estava bom... Já vou!

- O homem perfeito não lava a louça?

- O homem perfeito tem liberdade, ou seja, não é escravo!

- Tudo bem, te deixo lavar sem as correntes... Hahaha

Hei! Não vai levar os poemas?

- No almoço eu levo!

- Ah... Esta achando que aqui virou albergue? Pega os poemas bem mais ou menos em cima da tevê! Ih... Vaza!

- Hahaha... Eu quero namorar contigo!

- Que?

- É... Eu quero namorar contigo!

- Fica querendo então...

- Faz tempo que to querendo! Tenho pressa de viver...

- Ué... Sem namorar comigo tu consegue respirar da mesma maneira, sabia?

- Bom... Vou esperar tu dizeres que sim... Mas não demora, pois se morrer a culpa é sua!

- Desde que sente no seu sofá para esperar, tudo bem, eu suporto a culpa...

- Adoro seu humor excêntrico...

- Odeio esse seu jeito folgado!

- Eu gosto de ti... É sério! Gosto mesmo...

Pensei: “Eu sempre quis ouvir isso, de maneira tão espontânea como foi dito, mais isso assusta mesmo sendo antes imaginado”. Olhei para o esquisitinho sem pantufa, como nunca antes havia feito. Enquanto isso, ele permanecia com uma mão na maçaneta e a outra arrumava o cabelo com uma sutileza impar, deixando visível o olhar mais incrível e desesperado por mim que eu já tinha percebido até ali.

Dei poucos passos em sua direção, mas o suficiente para alcançar seus lábios... Até hoje não sei dizer o porquê da minha atitude naquele momento, mas depois de buscar exageradas padronizações, o incomum me pareceu tão perfeito... Sem as pantufas, logicamente... Ao lado de um estranho conhecido, consegui abraçar o mundo, o mundo antipadrão, desleixado; estranho e intrometido, mas simplesmente um amor de carne e osso, e que ainda escreve belos poemas...


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