Escrever é minha maior paixão, e foi escrevendo que descobri a mim. Porque a forma mais simples de traduzir realmente quem sou é por meio de palavras vindas de mim mesma...
terça-feira, 13 de abril de 2010
Tempo imperfeito
Brincava com uma formiga entre os dedos, quando despertada de uma tranquila ausência por minha mãe, que após um “pss!”... gesticulou para que a acompanhasse. Levantei os olhos, e respondi apenas com o abaixar dos mesmos... Depois que ela passou, sentada sob um eucalipto, eu parecia ter no vazio toda a serenidade possível. Enquanto isso, uma multidão seguia o caixão, várias pessoas que eu desconhecia, outras que tivera visto uma ou duas vezes. Sentia através dos olhares lançados sobre mim, a pena que eu não necessitava. Não conseguia entender porque tanta gente fazia questão de ver o corpo de meu pai pela última vez, já que a maioria provavelmente não nutria sentimento algum por ele.
Entre cochichos e apontamentos, que deveriam ser discretos, mas com certeza não eram, acompanhei apenas com os olhos aquele teatro armado cruzar o portão do cemiterio, pois a tristeza era percebida nos passos de poucos, a maioria familiares, o resto, somente formava um aglomerado de curiosos sadistas.
Na volta, após o enterro, muitas pessoas passavam por mim e tocavam com certa leveza sobre minha cabeça e ombro, e diziam coisas de clichê. Ao restringir o local para menos pessoas, a maioria os donos dos passos pesados; levantei e fui até o túmulo. Olhei inúmeras flores coloridas mortas, mas aparentemente belas mesmo assim cobrindo o concreto que já lacrava o caixão. Foquei a foto acima do epitafio, que em preto e branco por opção, parecia tirar toda a luz que a imagem um dia teve; tendo abaixo uma frase ou cópia repetidamente usada, que nem é relevante escrever aqui, pois de tão comum, perdeu até o sentimento que ali deveria exaltar.
Poucas pessoas choravam pela perda, a maioria chorava por ver meu irmão chorar, que em meio a desmaios, gritava por nosso pai; e como se fosse uma novela da vida real, os presentes acompanhavam atentos ao sofrimento, mesmo sem ter afeto nenhum com o morto, mas mesmo assim choravam, choravam, choravam.
Observando tudo que rodeava a morte... nem consegui me questionar o por que da morte. As velas que nem aceitas pela religião de nossa familia se espalhavam em torno do túmulo, e o cheiro delas ao derreter entrava em minha mente para sempre recordá-lo quando futuramente o sentisse.
Com o ombro molhado de lágrimas alheias, e olhar vago, ao lado de meu irmão, que manteve um choro perturbador do principio ao fim do enterro, depois de alguns longos minutos, deixamos o cemiterio, sendo os últimos a abandonar o local.
No carro, o silêncio permaneceu até nossa casa. Meu irmão insistia em secar o rosto, mas as lágrimas não davam trégua; já eu, só era capaz de tremer, e pálida como nunca antes, queria chorar, mais não conseguia...
Ao ultrapassar o portão de casa, parecia que tudo perdera o movimento. O clima pesado do ambiente fazia todo som emitido agredir meus ouvidos.
Minha mãe sentada na sala em meio a tudo que remetia a incontáveis lembranças tentava não demonstrar a tristeza que sobrava em seu olhar, mas quando meu irmão atravessou a sala e fora direto ao quarto, trancando a porta com violência, roubou lágrimas de seus olhos.
Nunca tinha escutado tantos detalhes, e para fugir deles, procurei refugio em meu quarto, mas não tranquei a porta, e com isso espero não ter provocado o salgar dos lábios de minha mãe. Coloquei o fone de ouvido, e no volume máximo quis fugir de mim, e não pensar em nada por algum tempo... Tempo! Quanto tempo para esquecer o tempo que só existe em minha imaginação? ...espere o tempo passar, eis que ouvi isso o tempo todo hoje...
À noite sentei a mesa; só, comi vagarosamente, tendo como fundo o som do choro de minha mãe, que nesse momento permanecia na sala com visitas. Meu irmão dissera não ter fome, e agora, sem chorar, mas apenas por não ter mais lágrimas, na frente da tevê se escondia.
Após jantar, ao meu quarto retornei. Deitada, ouvia questionamentos vindos da sala: por que ele? E de como a morte poderia ter sido evitada. Não sei estabelecer a morte por merecimento, mas tudo aquilo que falavam parecia confortar os mesmos, e ainda sem confrontar a opção de Deus... Decidi fugir dos sons, e escolher escutar algo que confortasse a mim, então coloquei uma música num volume bem baixinho para tocar, e adormeci sem nem ao menos deixá-la concluir... “... Lembro das tardes que passamos juntos, não é sempre, mais eu sei, que você está bem agora, só que nesse ano o verão acabou, cedo demais...” E assim, sem ostentar sentido algum, adentrei os sonhos profundos.
O dia seguinte é sempre pior do que o anterior, isso comprova a intensidade da tragédia. Ou seja, o café foi solitário em meio ao que sobrou da familia, meu irmão continuava sem fome; a ausência dos olhares mantinha a carência de lágrimas, e as poucas palavras revelavam a falta de alguém.
Um dia de dor, seguido de ausência, e logo seria saudade, ou talvez já fosse... O ruim é pensar que o tempo é que fortalece e engrandece a saudade... E então, o que fora palavras de consolo oferecidas por pobres almas, agora finalmente fazem arrancar lágrimas de mim, porque o tempo passou...
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